sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sou branca?

Na época que eu odiava o meu cabelo, eu já queria ter nascido da cor da minha mãe. Quando eu ainda achava que o meu nariz era a coisa mais horrorosa desse mundo, eu desejava não ter nascido da cor do meu pai. Hoje eu aceito o meu cabelo natural, ele é incrível e o meu nariz é lindo e parece a parte da frente de um fusca. Fofo.

 Eu, meu coração e a minha alma somos negros. A causa tem totalmente o meu apoio. Minhas mãos erguem a bandeira, mas a minha pele é clara. Por ter a pele clara eu não sofro racismo. Ninguém nunca me chamou de nomes pejorativos ou usou a cor da minha pele pra tentar me ofender. Quando aceitei o meu cabelo, ouvi de muita gente que eu era louca, que minha pele era clara e eu deveria usar o cabelo alisado, como um disfarce. Você não é preta, não força a barra desse jeito. Negros me falaram essas coisas.

Já li algumas vezes (e não foram poucas) que pessoas brancas não podem se sentir negras, não importa se o cabelo é crespo, ou se um de seus progenitores são negros, que importa é a cor da sua pele. Tenho receio se devo publicar certas coisas, ou de me afirmar de certas formas. Sou mistura de preto com branco, mas meu sangue é negro, sangue de um povo que foi tirado das suas terras pra ser escravizado e diminuído aqui. É esse sangue que corre nas minhas veias e que clama por justiça e igualdade.

Eu me olho no espelho e sei muito quem sou! Sei de onde vim! Mas não sei se sou aceita por ser assim de pele clara. Uma vez eu ouvi que não deveria levantar bandeiras que não eram minhas e que já estava ridículo eu sendo branca lutando contra um suposto racismo. Isso me doeu de uma forma que eu não consigo explicar, pois de certa forma a pessoa tinha razão já que eu realmente nunca sofri por causa da minha cor, mas em contra partida o dor dos meus irmãos me machucavam e indignavam de forma verdadeira. Até hoje os meus punhos ficam cerrados e sinto crescer no meu corpo quando vejo alguma cena de racismo. Quando vejo um dos meus sendo injustiçados.

Não quero roubar a cultura de ninguém, ou ser desagradável quando falo sobre a forma como eu me vejo. Mas eu sou desse jeito. Ofendo-me quando me questionam o motivo de eu não operar meu nariz ou quando perguntam quando decidi aderir à moda do cabelo afro. Minha pele é clara ou amarelada. Só fico com ela mais escura depois de umas duas semanas pegando sol, mas mesmo assim dá muita diferença.

Resumindo, não sei como me definir e nem como fazer você me aceitar.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Primeiro

Meu nome é Jiulliana Faria, tenho 24 anos, meu cabelo é crespo e o uso cabelo natural faz um ano e seis meses. Meu processo de transição foi tranquilo, fiquei apenas quatro meses sem alisamento antes de cortar as pontas alisadas e assumir com orgulho o meu cabelo de verdade.
Uma vez ouvi de uma amiga que quando assumimos o nosso cabelo, temos a nossa ligação com a África é ativada, e no final das contas acho que isso faz muito sentido. Por ter sido escrava do alisamento durante a minha vida quase toda, eu mais do que ninguém posso afirmar que a raiz era um problema, que o pé na África era motivo de vergonha e que os “parentes” precisavam ser escondidos. O cabelo que crescia na minha cabeça era um problema que precisava ser escondido. Não era uma brincadeira, era um problema sério que abalava severamente a minha autoestima. Cabelo sempre foi um bom assunto, mas diferente de antes, hoje eu vejo meninas com cabelos tão sofridos, judiados e sem vida, mas pelo menos estão alisados, já que é notório que nunca serão realmente lisos. Não entendo como alguém prefere ter um cabelo feio e morto, porem liso, cabelo de branco, do que aceitar o cabelo lindo que já nasce pronto. É serio, ela já nasce prontinho, cheio de personalidade e singularidade. Deixemos claro que não tenho problema com quem decide alisar o cabelo, afinal todos são livres pra fazer o que quiserem, mas acho triste imaginar que ainda existam pessoas escravas dos alisamentos apenas pra entrar nos padrões de beleza impostos, na frustrante tentativa de se sentirem vistas e bonitas.
Vejo mulheres lindas, cada um o seu tipo único de beleza, escondendo rostos atrás de implantes capilares. Cabelos lisos que não se misturam com o cabelo original e no resumo, mais atrapalham que ajudam. Ter um cabelo que não é seu é melhor do que aceitar?
Deixemos os gastos absurdos de lado, mesmo sabendo dos sacrifícios que muitas fazem pra conseguirem comprar o cabelo, que muitas vezes nem é na quantidade suficiente. E em casos mais extremos, mulheres e meninas que recorrem á alisamentos baratos e destroem o pouco de cabelo tem. Vejo meninas, crianças já tendo necessidade de alisamentos, se sentindo feias por terem cabelo crespo. Veja bem, são apenas crianças. Meninas que deveriam sentir-se lindas como são tem corações feridos por pessoas e pela mídia afirmando que o seu cabelo é ruim, que é duro, e que se ele fosse liso, ela seria mais bonita. Eu cresci achando que o meu cabelo ia ser liso quando eu crescesse. Sonhava com um remédio que o deixasse liso, como uma cura.
Só quem passa pelo o que passei vai conseguir entender, e caso você não tenha entendido, peço que abra os olhos e o coração ao que acontece a sua volta. Esse não é um problema absurdo, mas se sentir feia pelas suas raízes não é uma das coisas mais confortáveis. Alguém inventou que cabelo crespo era ruim e feito, que era melhor tem um cabelo alisado feio e morto que ter um cabelo natural, livre e orgulhoso. Mentiram pra nós e precisamos elevar a verdade.
“E DIGO BEM ALTO SIM! QUEM FOI O IDIOTA QUE CONCLUIU QUE MEU CABELO É RUIM?”